quinta-feira, 12 de abril de 2012

Re-usando o armário da mamãe.


A moda do Re-Usar 


Diz o ditado que nada se cria, tudo se copia. Na moda tudo se re-cria.
E se ao invés de copiarmos ou re-criarmos, usássemos a política do re-usar?
Se a moda é cíclica, por que relançar uma nova coleção a cada três meses para re-ciclar uma ideia antiga?
Segundo Gilles Lipovetsky:

“Estamos destinados à instabilidade crônica dos valores, aos vai-e-vens das ações e reações, ao “eterno” retorno da moda que não cessa de reciclar na modernidade as formas e valores antigos...Certamente é possível re-situar este momento em um destes ciclos periódicos da história moderna.”

Mas que momento é esse? O que seria reciclar na modernidade as formas e valores antigos? 
Para os estilistas e a indústria têxtil reciclar tem outro sentido que não o verdadeiro da palavra. Para eles “reciclar” é fazer uma releitura, é inovar o velho. É a ação sem pensar nas consequências futuras da reação.

A moda do século XX foi marcada de acordo com os acontecimentos e necessidades de cada década. Podemos tomar como exemplo o New Look de Cristian Dior (1947) que associado à empresa têxtil Boussac, lançou uma linha de vestidos revolucionária, mandando uma mensagem às mulheres: “comprem mais panos”. A mulher do pós-guerra mudou e, com ela, suas roupas. As saias rodadas da década de 50, a mini-saia de Mary Quant nos anos 60 mostrando a liberdade feminina, o estilo hippie e o blue jeans dos anos 70, são alguns dos exemplos do encontro da moda com as necessidades de cada época.


E hoje, qual é a nossa necessidade? Quais os acontecimentos que podem liderar uma revolução na moda atual?
Vivemos numa época de “fast fashion” onde compramos para satisfazer nossos desejos ou fugir das frustrações pessoais. As mulheres trocam seu guarda-roupas a cada seis meses, sem pensar nas consequências deste “consumir por consumir”, simplesmente para acompanhar a moda que, como já vimos, nada mais é do que uma re-criação do que já foi voga um dia.
As ideias são quase as mesmas, todas tem um ar retrô, vintage, um pé no passado. Apesar de a tecnologia ter invadido o mundo da moda, os saudosistas andam com mais sorte, pois a releitura sempre vinga e vende mais.






Mas novamente eu me pergunto, qual é a nossa necessidade?


Buscar no consumo a resolução para todos os sofrimentos já se mostrou um conceito fracassado. Quanto mais temos, mais queremos. E é exatamente isso que o mercado da moda espera de nós. Mas já aviso: é uma cilada. Temos que aderir a uma nova politica, diferente da do “ter”, a do “ser”.
Quando vemos um vestido numa vitrine ou vestindo uma linda modelo na capa de uma revista, geramos em nós a necessidade do consumo, “eles” geraram em nós o desejo de consumo. Por alguns instantes pensamos que ter aquele vestido pode melhorar o nosso dia. Ledo engano. Os problemas ficam, o dinheiro vai embora, o mercado da moda agradece e a natureza mais uma vez chora.


Espera aí! O que a natureza tem a ver com isso?
Simples, chegamos ao ponto da necessidade da nossa década: A necessidade de consciência!
Há alguns anos os termos “ecológico” e “eco-sustentável” não estavam em pauta. Ainda não tínhamos percebido que os recursos da natureza são, na sua maioria, não renováveis e nos preocupávamos apenas em retratar a nossa realidade nas nossas roupas. Sim a moda é documento histórico, mas é também um atual problema de sustentabilidade ambiental.

“O problema da poluição ambiental tem caráter mundial e vem exigindo ações preventivas e corretivas para situá-lo em níveis aceitáveis, compatíveis com a preservação da qualidade de vida. Dentre as atividades industriais poluentes temos a têxtil, geradora de alta carga residual conhecida como lodo, e frequentemente emissora de efluente tratado que não atende ao parâmetro de controle ambiental cor, para o qual é exigido virtual ausência. Vários processos e produtos podem ser empregados para a remoção de cor, tais como adsorção, coagulação, técnicas biológicas e oxidação química, destacando-se a utilização de alúmen ou sais ferrosos com polieletrólitos, os quais têm o inconveniente de gerar lodos inorgânicos.” (Magali O. Bonatti, Ricardo A. Rebelo e Ivonete Barcellos) 


Resumindo a indústria têxtil polui, a indústria têxtil usa recursos não renováveis e o pior de tudo: produz demais. Não vamos nem entrar nos detalhes e falar do trabalho escravo nas indústrias têxteis na China ou para onde vão todas estas roupas quando saem da moda... Mesmo com toda a tecnologia atual a moda não é mais uma necessidade de retratar a nossa época. Ela é exclusiva, para poucos que têm poder aquisitivo de renovar o closet a cada estação e depois dar um fim para o que é “velho”. 


Por isso, sem mais delongas, a minha proposta para a moda atual não é re-criar, re-ciclar e comprar mais do mesmo toda estação. A minha proposta é re-usar. “Certamente é possível re-situar este momento em um destes ciclos periódicos da história moderna”.


Se a moda é cíclica e o antigo é moderno, porque não usarmos as roupas que já compramos na outra estação? Roupas que eram das nossas mães, roupas que podem ser re-usadas, compradas em ótimo estado em brechós? Porque não Re-usar? Afinal, nada esta mais na moda que ser sustentável, não é mesmo? E nada como um toque pessoal no look, com pequenas mudanças e acessórios podemos transformar o velho em novo, o antigo em retrô, o usado em vintage!


Vamos nessa? Vamos transformar a moda da nossa década na moda do re-usar, re-aproveitar?
Não estou dizendo que devemos parar de consumir moda ou quebrar o mercado de luxo. Estou falando em consumir com consciência. Pesquisar se a roupa que você esta comprando foi feita da maneira mais ecologicamente correta possível, sem deixar-se enganar por selos verdes. O capitalismo verde esta aí para nos fazer consumir e pensar que estamos consumindo bem. Então pesquise, compre com consciência e SEMPRE que puder, re-use!


O objetivo deste blog é mostrar que é possível sim estar na moda de uma forma sustentável em todos os âmbitos da palavra. Vamos falar do que esta nas passarelas e fazer paralelos com o passado, mostrando que re-usar é bonito, é possível e é bom para nós e para o planeta.


Aguardem as novidades! Em breve : "Mamãe já usou" e vai ensinar você a re-usar.
vejo vocês em breve,
Sam.





   Créditos:
   Texto: Samantha Pinotti
   Foto: Fábio Alt
   Produção: Bruna Sasso (Roupas de família e de brechós)

13 comentários:

  1. hahaha, adorei.
    É bem tu mesmo.
    beijos:X

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  2. Samanta, o teu texto é maravilhoso e a ideia, absolutamente maravilhosa.Sou tua fã de carteirinha.
    Coloco meu acervo à tua disposição. Tenho peças bem interessantes.
    Bjos.
    Quiteria

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    1. Obrigada Quiteria. Da mesma forma sou tua fã e te agradeço!
      Um beijão!
      Sam

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  3. Quero ver dicas de Brechós em Porto Alegre,
    Vai ter?

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    1. Claro, espero que todos os dias!
      Um beijo,
      Sam

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  4. Ansiosa pra ver as novidades na segunda. adorei o blog. É a tua cara sam.
    Beijos beijos:*
    Bia

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  5. Oi, conheci seu blog pelo Twitter do @LeonardoBoff e achei a idéia muito boa. É de pessoas assim que o mundo da moda precisa!
    Ótimo texto e voltarei segunda!
    Abraços

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    1. Que bom que veio Carla,
      Seja muito bem vinda!
      Um abração,
      Sam

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  6. Olá Samantha, amei o texto e a ideia, como já te disse e torno a repetir, tu falas de moda e estilo pra gente e não para "cabides", isso é muito bom porque tuas sugestões se adequam a nós que não temos corpo de modelo e também para quem tem. O bom é poder usar no dia a dia a mesma peça que pode servir para a noite e reaproveitar muita coisa boa que em outros tempos iriam fora...lembrando que haviam tecidos muito bons e resistentes "antigamente", minha mãe tinha coisas lindas, rendas maravilhosas, lãs que estavam sempre com aparência de novas, até luvas de cetim acredita??!! Vou lá na casa dela dar uma garimpada!
    Eu como passo mais de 50% do meu dia de branco, fico curiosa pra saber o que tu criarias em cima disso! A enfermagem agradece. Abração.
    Verusca Pinotti

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    1. Oi Verusca,
      Amei o seu comentário!
      É bem verdade que as roupas eram feitas para durar muito, hoje são feitas para não durar, justamente para que sejamos obrigados a comprar mais. Comprando em brechó, este problema esta quase fora de questão.
      Mas brechós bons!
      Vou fazer o possivel para que todos entrem nesta onda de reciclar moda! Vamos ver o que as enfermeiras podem fazer! Vou pesquisar!!!
      Um super beijo,
      Sam

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  7. Adorei o blog, Sam! Já roubei muitas peças de roupas da minha mãe hehehe. Peguei um casaquinho preto de veludo dela, virou meu xodó. Vamos adotar a moda do Re-usar, já! :)

    Bruna Brito

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  8. consumo consciente, essa é a camiseta da moda!
    beijão!!!

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